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terça-feira, 27 de março de 2012

Australian Cattle Dog - A raça no asfalto




A versatilidade da raça a fez romper as fronteiras do trabalho rural. Em vários países, o Australian não só é muito adotado como cão de companhia, como se sai bem na guarda, tem destaque no agility, participa de exposições de beleza e conta até com alguns representantes atuando como farejadores de drogas ou de pessoas desaparecidas.

Se a idéia, no entanto, é manter um Australian afastado da função de boiadeiro, há um quesito essencial: exercitá-lo, e muito. Do contrário, acaba inquieto e destruidor. A ex-criadora de cavalos e dona de duas fêmeas de Australian, Maria Leônia Oliveira, de Guarulhos, SP, sabe disso. “Quando adquiri minha primeira cadela, a Fênix, hoje com 2 anos, ela ficava em casa a maior parte do tempo e se exercitava apenas durante os passeios diários”, lembra. Fênix era agitada, pulava nas pessoas e se movimentava euforicamente. “Todo dia eu encontrava móveis mordiscados e objetos derrubados”, conta. Há pouco mais de um ano, a dona decidiu inscrevê-la num curso de agility. Com dois ou três treinos semanais, Fênix é outra cadela. “Ela continua ativa, adora correr no quintal e entrar em casa saltando pela janela, mas tornou-se muito mais centrada, sabe ficar calma, sabe nos ouvir e raramente destrói as coisas”, comenta satisfeita.

No início deste ano, Maria ganhou a mãe de Fênix, a Flecha, com 4 anos. Flecha lidava com gado na hípica de Taubaté, em São Paulo, ajudando cavaleiros no treino da modalidade de rodeio conhecida por laço de bezerro. “Sabia que precisava mantê-la na ativa e a matriculei num curso de obediência que ensina truques variados, como o de fingir-se de morto”, comenta.
Entretida e exercitada, a dupla de Australians é só alegria. “Elas são companheiras e brincalhonas”, diz. “Adoram passatempos enérgicos, mas curtem sossego; vêem TV comigo, dormem quietinhas no meu quarto e me acompanham até em viagens.”

Quanto ao desempenho esportivo das cadelas, só não surpreende porque a raça é famosa pelo sucesso nas atividades físicas. “Flecha, mesmo adulta, aprendeu 14 comandos em apenas seis meses”, contabiliza Maria. Fênix também executa com desenvoltura as provas de agility, que igualmente requerem habilidade de obedecer ordens. A raça, embora tenha um lado independente capaz de testar nossa liderança, encara o Homem como parceiro. “O Australian não é um cão que obedece cegamente por imposição, mas gosta de atuar em parceria e, desde que nos encare como chefes do bando e que seja tratado com respeito, faz tudo para nos agradar, até mesmo acatar comandos variados”, explica a criadora Irene Laure, de Tocantins. Não é a à toa que ele obteve o 10º lugar entre 133 raças avaliadas no ranking de obediência do livro The Intelligence of Dogs, do canadense Stanley Coren. A análise do resultado detalha: as raças classificadas da 1ª a 10ª posição são as mais brilhantes no que se refere à obediência e à inteligência de trabalho. A maioria de seus exemplares assimila novos comandos após exposta a eles menos de cinco vezes. Além disso, mesmo com pouco treino, tende a memorizá-los definitivamente. Também acata 95% das ordens ou mais sem hesitar nem exigir que sejam repetidas.

Com tanto potencial, vida ativa e donos que saibam liderar é a fórmula para Australians disciplinados e seguidores das regras domésticas. Mas não estranhe caso eles mordisquem o calcanhar dos familiares. Esse pitoresco comportamento é instintivo. É assim que a raça conduz o boi. “Para que essa atitude não se torne inconveniente, desestimule-a no filhote desde cedo”, ensina Irene.
Não bastassem os dotes de companheiro, o Australian serve de guardião. Reservado com desconhecidos, não admite invasões territoriais. “Um dia, as cadelas avançaram numa visita que entrou sem a minha presença; só não a machucaram porque apareci a tempo”, conta Maria. Visitantes recebidos pelos donos são aceitos sem grandes hostilidades. “Ambas latem bravas quando toca a campainha, mas, assim que faço a pessoa entrar, elas a aceitam e até se deixam acariciar”, acrescenta.

PARA SABER MAIS
Clubes: Austrália — Australian Cattle Dog Social Club of North Queensland. Site: www.wolfweb.com.au/acd/.Estados Unidos — Australian Cattle Dog Club of America. Site: www.acdca.org/
Sites:
1) www.cattledog.com/
2) www.australiancattledog.com/
3) www.cattledog.com.au/

Agradecemos aos entrevistados. Coordenação de imagem: Angela Finocchiaro. Coordenação geral, Reportagem e Texto: Flávia Soares. Revisão técnica (intermediada por Fabio Bense) — Completa: Aike S. Neumann, Hilda Drumond, Irene Laure, Janott Coelho e Régis Pio Monteiro da Silva. Parcial: John Chandler e Maria Leônia Oliveira.

Fonte: PETBRAZIL
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Australian Cattle Dog - A formação da raça



O Australian, lembra o australiano John Chandler, surgiu da necessidade. “Quando os colonizadores chegaram à Austrália, no início de 1800, trouxeram para cá numerosas boiadas”, conta John. “Como foram mantidas soltas, pastando nas áreas selvagens e de clima quente e inóspito, típicas do território australiano, acabaram se tornando muito agressivas.” Assim, fez-se fundamental a existência de um cão resistente, corajoso e ágil para lidar com rebanhos difíceis, em ambientes hostis. Os colonizadores tinham seus próprios cães para o trabalho com o gado, mas eles não se adaptaram àquelas condições. Além de tudo, latiam demais durante o serviço e mordiam o focinho dos bois na tentativa de manejá-los. O resultado era uma boiada estressada e ainda mais arredia. Esses cachorros pertenciam à extinta raça conhecida por Smithfield. Na esperança de torná-los aptos à atividade, alguns deles foram acasalados com Dingos, cães selvagens australianos, adaptados ao hábitat local, caracterizados pelo comportamento silencioso, porém também mordedor. Os descendentes dessa mistura foram chamados de Timmon’s Biters. Mas não serviram para o trabalho: quase não latiam, porém mordiam ainda mais. Em 1830, o colonizador Thomas Hall fez nova tentativa. Desta vez, rumo ao sucesso. Promoveu o acasalamento entre Dingos e Scottish Drovers Dogs, cães que, embora não fossem de raça pura, eram selecionados para condução do gado. Os frutos da experiência foram batizados de Hall’s Heelers. Eram resistentes, latiam pouco e não mordiam em excesso. Outras miscigenações foram feitas, envolvendo Hall’s Heelers e Dingos. Mais de dez gerações eram necessárias para que se obtivessem exemplares apropriados ao trabalho. “Diferentemente do que muitos pensam, não houve Collies na história do Australian; ele é fundamentalmente originário do Dingo e do Hall’s Heeler”, afirma John. “Houve, sim, introdução de mais algumas raças para aprimorar certos aspectos, mas, por outro lado, elas traziam problemas”, acrescenta. O Dálmata foi usado para colaborar com dois de seus famosos atributos: a devoção ao ser humano e a receptividade ao cavalo, essenciais na lida com o gado, desempenhada sempre na presença do Homem a cavalo. “Em contrapartida, prejudicou o instinto de conduzir a boiada e gerou cães de orelhas pendentes, menos aptos a ouvir o comando do Homem durante o trabalho”, contrapõe John. O Bull Terrier, por sua vez, entrou na formação do Australian para torná-lo ainda mais corajoso. “Foi um equívoco; o Bull era usado em lutas e transmitiu um comportamento muito violento em relação à boiada”, explica John. Por último, usou-se o Kelpie, para reforçar o instinto de boiadeiro, então prejudicado pelo sangue do Dálmata. Após uma sucessão de erros e acertos, em 1893 o Australian foi considerado pronto. A raça também é conhecida por Blue Heeler e Red Heeler. Os termos blue e red designam as cores aceitas para ele: azul marmorizado, a mais comum, e vermelho marmorizado. Já heeler pode ser traduzido como “calcanhador” e vem do inglês heel, que significa calcanhar, alusão à natureza da raça de morder o boi nesta região das pernas. 



Fonte: PETBRAZIL
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Australian Cattle Dog - Preparo

 



Embora todas as características necessárias para o bom desempenho da função de boiadeiro estejam arraigadas no Australian, só o instinto não faz dele um cão de sucesso no campo. O treinamento é fundamental. “Um Australian sem treino não só fica mais vulnerável a acidentes como até atrapalha no manejo do gado”, comenta Aike. “A tendência natural dele é tocar os bois o tempo todo, impedindo que pastem ou descansem”, explica a criadora. O mais comum é que os próprios fazendeiros ou peões se encarreguem do condicionamento dos cães, mas há adestradores especializados nesse treinamento. E, na opinião de muitos especialistas, trata-se do treino mais arriscado da espécie canina. “Nenhum outro adestramento lida rotineiramente com o risco iminente de acidentes como o dos cães boiadeiros”, compara Janott, que há 25 anos adestra cães para diversas modalidades, como guarda, busca e salvamento, cão de polícia, ring, KNPV, obediência e boiadeiro. “Nem o treinamento dos farejadores de explosivos ou dos cães de resgate em escombros é tão arriscado, porque os exemplares não têm acesso a explosivos de verdade e praticam exercícios em ambientes simulados e controlados.”

Já na lida com o boi, há pouco controle e nenhuma simulação. Embora com algumas variações, o método de adestramento para o cão boiadeiro é mais ou menos o mesmo no mundo todo. O primeiro passo é selecionar os mais aptos da ninhada. “O fato de a raça ter sido aprimorada para a função não significa que cem por cento dos exemplares nasçam adequados a ela”, comenta Régis. “Há uma minoria que não se interessa pelo gado, que procura distância dele; esses cães têm baixo potencial para a atividade.”

O filhote promissor é aquele que demonstra curiosidade ao ver bois e outros animais da fazenda. “A maioria dos Australians, mesmo quando tem apenas 2 ou 3 meses de idade, já presta atenção no gado, quer se aproximar, correr atrás dele”, conta Janott. Nessa fase da vida, contudo, o recomendado é não promover nada mais que uma apresentação entre espécies. “Duas ou três vezes por semana, a gente os leva ao pasto para que observem bois e carneiros por alguns minutos”, conta o adestrador. Durante esse processo, que deve levar alguns meses, os cães também se acostumam com a presença constante do homem a cavalo. “Eles precisam entender que o cavalo é um parceiro e, portanto, que não deve ser conduzido”, acrescenta. Quando os jovens Australians voltam sua atenção aos eqüinos, são desencorajados com gestos ou com o comando “não”.
O treinamento propriamente só costuma ter início quando os cães atingem de 6 a 12 meses. Parte dos criadores prefere os exemplares que beiram 1 ano. “Nesta idade, o cão tem mais coordenação, já conhece bem seu corpo e seus reflexos; a tendência é que se saia melhor e que se machuque menos”, opina Irene, que se encarrega pessoalmente do treino de seus Australians. Mas há quem opte por iniciar as aulas antes. “Desde que o treino seja leve, é possível passar conceitos básicos para cães de 6 meses”, diz Janott.

Tanto num caso quanto no outro, é comum que o Australian estréie no ramo enfrentando carneiros. “Além de menores que os bois e, portanto, menos capazes de machucar seriamente o cão, os carneiros são assustadiços, o que contribui para aflorar o instinto combativo do Australian”, explica o adestrador. As aulas geralmente acontecem no chamado redondel, uma espécie de curral circular, assim projetado para que carneiros e outros animais não se refugiem nos cantos. O Australian é solto no meio deles e passa a persegui-los, estimulando-os a se mover. “O comportamento de andar atrás dos bichos e de mordiscá-los é inato à raça; a gente só vai lapidando esse instinto”, ensina Janott. Essa lapidação consiste em estimular ou desencorajar a atitude do cão por meio de gestos e comandos verbais ou assobiados. “Se ele morder forte demais, a gente emite energicamente o comando ‘pára’; se deixar de morder, a gente o incentiva, falando ‘toca’”, ilustra.



O tempo para que o cão responda a essa etapa inicial varia de exemplar para exemplar: geralmente leva de duas semanas a dois meses. Quando estiver desenvolto, é hora de encarar os bezerros no pasto, fase em que também aprenderá os outros comandos necessários para a função. São eles: “vai”, para seguir em frente; “devagar”, para diminuir o ritmo; “direita”; “esquerda”; “olha pra trás”, para que veja algum animal desgarrado e o reconduza ao grupo; “vá pra trás”, para que se dirija ao final da boiada; e “pra água”, para que possa se refrescar, bebendo água e mergulhando nela. Isso mesmo: mergulhando. Os Australians não só adoram água, como precisam dela para se recompor do serviço puxado. “Eles trabalham em dias e horários muito quentes; se não puderam beber e entrar na água, podem até morrer de insolação”, avisa Janott. Seja no açude do pasto ou nos bebedouros da boiada, os cães não hesitam: “Quando escutam o comando, saem como loucos e se arremessam na água”, descreve. A pausa para o banho não é longa, mas serve também para acalmar os cães. “Às vezes, eles ficam muito agitados durante a atividade, é como se estivessem com excesso de energia; uma refrescada ajuda a relaxá-los”, acrescenta Janott.

Passada a etapa dos bezerros, vem a dos garrotes, na qual as únicas novidades são o tamanho e a força dos conduzidos. Por fim, o Australian está graduado para liderar os gigantes. O treinamento completo leva ao redor de 6 meses, mas pode ser instável. “Às vezes um cão de ótimo desempenho com os garrotes, passa para o boi adulto, leva um coice de cara e se traumatiza”, atesta o adestrador. “Nesse caso, só nos resta recolocá-lo na etapa anterior ou mesmo reiniciar do zero, com carneiros, para que ele readquira confiança”, explica. E nem pense em ensinar um Australian na base do castigo ou de broncas exacerbadas. Esses cães precisam, sim, de voz firme, mas quem convive com eles afirma: não admitem desaforo. “Se você extrapolar na repressão, ficam chateados e o largam sozinho no pasto; e não adianta chamá-los porque só voltam se e quando passar a chateação”, avisa Janott. Teimosia? Não deixa de ser, mas os criadores garantem que ela é bem-vinda. “O Australian tem de ser independente e um pouco turrão para desempenhar bem sua atividade; se não fosse, desistiria de tudo no primeiro coice”, avalia.

Em nome da independência e do espírito teimoso, treiná-lo para obediência básica costuma ser contra-indicado. Pelo menos quando se deseja transformá-lo num boiadeiro por excelência. “O treinamento de obediência faz com que o cão se foque no ser humano, que queira estar sempre perto dele, submisso a ele; o boiadeiro canino precisa estar focado na boiada e encarar o Homem apenas como parceiro”, esclarece o adestrador. E a parceria costuma ser vantajosa para ambos. O Australian não só demonstra adorar o trabalho rural como, diferentemente dos cães especializados na guarda de rebanhos, que permanecem tempo integral com a bicharada da fazenda, encerra o expediente junto com o colega humano. “Depois do batente, ele costuma ser recompensado com a companhia quase permanente dos donos”, observa Régis. “É o Labrador do pessoal do campo; vai para casa, vê TV com a família, passeia de carro e tudo o mais.” Do ponto de vista humano, além da sempre agradável presença de um bom cão, a vantagem da parceria é medida pela economia de funcionários: um único Australian treinado, acompanhado de apenas uma dupla homem e cavalo, dá conta de boiadas com aproximadamente 200 cabeças. “Sem ele, um rebanho desses só seria devidamente manejado com duas ou três duplas de homem e cavalo”, compara Janott. 



Fonte: PETBRAZIL
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segunda-feira, 26 de março de 2012

Australian Cattle Dog - Perfil


Que ninguém pense, contudo, que esse rústico boiadeiro não tem potencial para a vida urbana. Seus predicados como cão de cidade existem e não são poucos (veja A raça no asfalto). A Austrália, sua terra natal, que o diga. Lá, onde cerca de mil exemplares da raça são registrados anualmente, o Australian já esteve, como aqui hoje, concentrado em áreas rurais. De aproximadamente 20 anos para cá, tudo mudou. Com a implantação de técnicas avançadas na pecuária, viáveis sobretudo em nações endinheiradas, a Austrália reduziu significativamente o uso do cão na condução do gado. Quem explica é o australiano John Chandler, criador da raça há 58 anos e secretário do Australian Cattle Dog Social Club of North Queensland: “Agora, temos helicópteros e motocicletas ajudando no trabalho de pastoreio e condução. Por isso, o Australian, embora ainda seja empregado em sua função de origem, deixou de ser uma peça tão fundamental na nossa pecuária; hoje estimo que apenas 25% do plantel da raça esteja em atividade nas fazendas, os outros 75% estão em áreas urbanas e semi-urbanas, atuando como cão de companhia e guarda.”

Mesmo que atualmente a Austrália o utilize menos como cão boiadeiro, ela trabalhou duro para desenvolvê-lo (veja A formação da raça). Foram mais de 80 anos em busca do perfil canino ideal para a função. A meta não poderia ter sido mais bem atingida. O Australian se transformou num legado para as nações que, a exemplo do Brasil, praticam uma pecuária, por assim dizer, mais primitivista. Ou seja, que adota técnicas rudimentares e na qual cão, cavalo e homem são os pivôs do trabalho. “O uso do cão na condução da boiada não é novidade no País, a novidade é o Australian, cujo desempenho é incomparável”, sentencia Régis.

Antes da introdução da raça no Brasil, a mais comum alternativa canina dos fazendeiros para conduzir os pesos pesados da fazenda eram Boxers, Filas, Rottweilers, mestiços dessas raças, viralatas e até mesmo Border Collies, estes últimos adaptados da função de pastoreio para a de boiadeiro. Quem já testou o Australian, contudo, é unânime: ele supera todos. Boxers, Filas, Rottweilers e os respectivos mestiços tendem a tomar a dianteira da boiada e a segurar os bois pela frente, mordendo-os pelo focinho. 



Já o Australian tem o instinto de se posicionar atrás do rebanho e de morder seus integrantes apenas no calcanhar. Mesmo assim, morde e solta, em vez de segurar. É a chamada beliscada ou mordiscada, método perfeito para que se tenha êxito nas várias tarefas desempenhadas pela raça, cujo objetivo comum é o de tocar o gado. Ou seja, estimulá-lo a andar. “Seja para levá-lo de um pasto para outro, seja para conduzi-lo ao caminhão de transporte ou ao curral, o ideal é um cão que saiba desempacá-lo ou apressá-lo; nada é mais eficaz para isso do que uma mordiscada no calcanhar”, explica Régis. O cão que agarra o boi pelo focinho é mais apropriado para o serviço de imobilização, que não é exatamente o que se espera de um condutor de boiada. “Esses cães já foram muito importantes quando precisávamos paralisar o boi para vaciná-lo ou para tratar seus ferimentos, mas hoje temos áreas de contenção, como o brete, nas quais essas atividades são desempenhadas sem que seja preciso segurar os animais”, esclarece a agropecuarista e bióloga Irene Laure, de Pedro Afonso, em Tocantins, onde também cria Australians. O Border Collie, por sua vez, está inclinado a agir como no pastoreio, que é sua especialidade. “O instinto do Border é de reunir o gado e não de tocá-lo; ele circunda os animais em vez de andar atrás deles”, esclarece o criador e adestrador Janott Coelho, de Porto Velho, também presidente do Kennel Clube de Rondônia. Além disso, muitos dos exemplares dessas raças latem excessivamente durante o trabalho. “O boi se estressa com os latidos e pode até avançar sobre os cães para se ‘livrar’ deles”, pondera Régis. O Australian raramente late em serviço. Herdou o estilo silencioso de seu ancestral selvagem, o Dingo. Também veio dele a impressionante resistência a temperaturas elevadas e a jornadas extenuantes de trabalho, muitas vezes desempenhadas em condições precárias e em terrenos acidentados. Esse parente das selvas transmitiu ainda ao Australian boa parcela de seu destemor, agilidade e espírito combativo, características essenciais na lida com animais que manifestam seu desagrado com coices e chifradas e que quase sempre pesam ao redor de 15 a 30 vezes o peso de um cão de porte médio: um boi atinge de 400 a 1.000 quilos; um Australian não chega aos 30. “É impressionante ver um Australian em atuação”, atesta Janott. “Ele corre por horas debaixo do sol forte; salta obstáculos; enfrenta áreas de vegetação fechada e capim cortante; às vezes cai, mas se levanta prontamente; consegue se esquivar de coices e chifradas; e nunca se intimida, vai para cima da boiada como se ignorasse por completo o tamanho e a força dos bichos que conduz.” 


Como em qualquer atividade de risco, no entanto, acidentes acontecem. A maioria, de pouca gravidade. “De vez em quando um dos cães leva um coice de raspão ou um tranco qualquer e acaba precisando de uns dias de descanso para se recuperar”, comenta Régis. Fatalidades trágicas, embora mais raras, às vezes ocorrem. “Infelizmente, alguns exemplares se machucam seriamente ou mesmo morrem durante o trabalho”, lamenta Janott. A habilidade do Australian de desviar de chifradas violentas e coices rápidos nem sempre está nos seus melhores dias. “A atividade com bois é perigosa; uma breve desconcentração, um leve cansaço fora de hora ou uma simples passada a mais ou a menos podem significar uma tragédia numa fração de segundos”, pondera o adestrador. Sem dúvida, a sorte tem seu papel, mas o elemento principal para evitar o pior é o preparo do cão. 

Fonte: PETBRAZIL

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domingo, 25 de março de 2012

Australian Cattle Dog - Introdução

Ele vai surpreender você!

Boiadeiro por excelência, o Australian se expande no País. Saiba como ele foi desenvolvido, de que forma desempenha sua função de origem, em que outras atividades é usado e por que é impossível não admirá-lo

A vertiginosa ascensão desta raça no Brasil impressiona. Crescer tanto em tão pouco tempo, se não é um feito inédito na cinofilia nacional, é certamente pra lá de incomum. De 1996, data em que a criação oficial do Australian Cattle Dog teve início no País, até 2004, último ano com dados disponíveis, seu número anual de nascimentos registrados subiu 6,3 mil por cento. De modestos sete exemplares contabilizados em 1996, a raça saltou para 438 no ano passado. Essa cifra posicionou o Australian em 36º lugar no ranking de filhotes nascidos de todas as raças, mantendo-o à frente de figuras caninas bem conhecidas, como o Collie, o Dálmata, o Husky e o Pinscher.

O fato é que esse cão australiano especializado na lida do gado se populariza a passos largos em território verde-amarelo. Mas você já esteve diante de um deles? Pode parecer estranho, porém a grande maioria dos brasileiros jamais viu um Australian pessoalmente. Sobretudo para a população que vive em áreas urbanas, ele permanece como ilustre desconhecido. O paradeiro da quase totalidade das centenas de exemplares registrados todos os anos no Brasil são as regiões rurais, em especial as dedicadas à pecuária. Nelas o Australian vem conquistando fazendeiros e peões na prática de sua especialidade e de tarefas similares: respectivamente, a condução da boiada e o apoio em certas modalidades dos rodeios. “Mais de 90% da criação brasileira de gado de corte tem cães para auxiliar no trabalho, e o Australian não só é cada vez mais usado para isso no País como se tornou o cão do desejo dos pecuaristas”, comenta Régis Pio Monteiro da Silva, de São Paulo, criador da raça, de gado e veterinário de eqüinos. A popularidade do Australian no universo dos rodeios também é alta e ascendente. “No Norte, todo o pessoal de rodeio já o conhece, e um número crescente de pessoas o adota como cão de apoio em esportes eqüestres, como o laço de bezerro”, conta a criadora e adestradora Aike Schmitz Neumann, de Ariquemes, Rondônia. O mesmo acontece em outras regiões do Brasil: os dados da Confederação Brasileira de Cinofilia indicam que a raça está sendo criada nos quatro cantos do País, com destaque especial para o Sudeste, em 2004 responsável por quase 80% dos Australians registrados em território nacional. “Há muitos exemplares trabalhando no campo e nos rodeios por todo o interior paulista”, atesta Maria Leônia Oliveira, ex-criadora de cavalos e dona de dois Australians.

Fonte: PETBRAZIL
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